Bevagna · Úmbria

Brasão da família Cassoni: escudo dividido em quatro quartéis, com sete estrelas de ouro no alto, sustentado por dois grifos dourados, sobre a faixa com o nome Cassoni e a inscrição Bevagna

Família Cassoni

Sete estrelas atravessaram o mar.

Toda família tem um começo que cabe em uma data. A dos Cassoni cabe em um dia de julho de 1907, quando um oleiro de cinquenta e seis anos chegou ao Brasil com a mulher e sete filhos, trazendo nas mãos o ofício e, no nome, uma casa inteira.

I

A terra de origem

Bevagna fica no coração verde da Itália, na Úmbria, província de Perugia. É uma cidade pequena, assentada na planície entre Assis e Montefalco, cercada de trigo, de vinhas e de oliveiras. Os romanos a chamavam Mevania, e por ela passava a Via Flamínia, a estrada que ligava Roma ao mar Adriático.

As muralhas medievais ainda abraçam a cidade. Na praça principal, duas igrejas de pedra se olham de frente há mais de oitocentos anos. Quem caminha por aquelas ruas pisa o mesmo chão que os Cassoni pisaram.

O nome da família guarda uma imagem. Em italiano, cassone é a grande arca de madeira entalhada que, nas casas da Renascença, guardava o enxoval das noivas e os bens mais preciosos do lar. Cassoni é o plural. Quem leva esse nome leva consigo a ideia de guardar o que tem valor.

II

O oleiro

Stefano Cassoni nasceu em 1850, filho de Sabbatino Cassoni e de Eva Becchetti. Era oleiro. Do barro ele tirava a telha, o tijolo e o vaso: o trabalho paciente de quem transforma terra em abrigo.

A família já era antiga na Úmbria. Sabbatino, o pai, nasceu em 1815. Francesco, o avô, em 1770. Antonio, o bisavô, por volta de 1750. É o Cassoni mais antigo de que se tem notícia, e o primeiro de uma linha que nunca se partiu.

Casou-se com Apollonia Bianchi, e a casa se encheu de filhos: Abele, Giuseppe, Leonilde, Eva, Adamo, Fabiano, Irene e Agostino. Oito nomes ditos à mesa, oito bocas, oito destinos confiados às mãos de um artesão.

A Itália daqueles anos era dura com quem vivia do próprio braço. A terra era pouca e o trabalho, incerto. Do outro lado do oceano chegavam notícias de um país imenso, que precisava de gente e prometia futuro a quem tivesse coragem de buscá-lo.

Aos cinquenta e seis anos, idade em que um homem costuma colher o que plantou, Stefano escolheu plantar de novo.

III

A travessia

Em fins de junho de 1907, a família embarcou no porto de Gênova a bordo do vapor Re Umberto. Abele, o mais velho, ficou na Itália. Os outros sete filhos subiram a bordo com os pais e viram a costa desaparecer atrás do navio.

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De Gênova a Santos, a bordo do vapor Re Umberto.

Foram semanas de mar. Para trás ficavam a língua, os parentes, os mortos da família e a paisagem de toda uma vida. À frente havia apenas a palavra de que, no Brasil, o trabalho honesto encontraria recompensa.

Desembarcaram em Santos e subiram a serra de trem até São Paulo. No dia 21 de julho de 1907, o escrivão da Hospedaria de Imigrantes abriu o livro de matrícula e anotou, um a um, os nomes da família. A página existe até hoje.

Hospedaria de Imigrantes de São Paulo

Livro 78, folha 275 · 21 de julho de 1907 · vapor Re Umberto

  1. Stefano Cassoni chefe, oleiro 56 anos
  2. Apollonia sua mulher 44 anos
  3. Giuseppe 20 anos
  4. Leonilde 18 anos
  5. Eva 16 anos
  6. Adamo 13 anos
  7. Fabiano 9 anos
  8. Irene 6 anos
  9. Agostino 2 anos e meio

Sete filhos cruzaram o oceano. São as sete estrelas do brasão.

O mais velho dos filhos a bordo, Giuseppe, tinha vinte anos. O mais novo, Agostino, tinha dois anos e meio e era pequeno demais para guardar lembrança do mar. Entre eles vinha Adamo, de treze anos, que no Brasil seria chamado de Adão.

IV

A terra nova

Da Hospedaria, a família seguiu de trem para o interior. O destino anotado no livro era a estação Engenheiro Gomide, no ramal de Mococa da Companhia Mogiana, em São José do Rio Pardo. Ali os esperava o café.

Quem trocou as colinas da Úmbria pelos cafezais paulistas trocou também de língua, de céu e de estações. Aprendeu palavras novas para coisas antigas. Trabalhou de sol a sol em terra alheia, com a dignidade de quem sabe por que veio.

Em 1916, Abele veio também. Trouxe a esposa, Erminia, e o filho Giovanni, de poucos meses, e seguiu para Mococa, vizinha da terra onde viviam os pais e os irmãos. A família estava reunida outra vez, agora do lado de cá do mar.

Stefano viveu até os setenta e três anos e morreu em Ribeirão Preto. O oleiro de Bevagna descansa em terra brasileira, a terra que ele escolheu para os seus.

Apollonia viveu até 1940, também em Ribeirão Preto. Viu os filhos crescerem e os netos nascerem em terra brasileira.

V

Adamo e Ernesta

Adamo tinha treze anos quando viu o Brasil pela primeira vez. Aqui terminou de crescer, aqui se fez homem, e aqui o seu nome ganhou outro som: Adão. Em São José do Rio Pardo, casou-se com Ernesta Barucco, e com ela formou a sua casa.

Com o tempo, a família deixou os cafezais e tomou o caminho de São Caetano do Sul, às portas de São Paulo, como tantas outras famílias italianas que ajudaram a erguer a cidade com o trabalho das próprias mãos.

Adamo partiu aos cinquenta e seis anos, a mesma idade que o pai tinha quando atravessou o oceano. Deixou o que um homem pode deixar de mais valioso: filhos de caráter e um nome honrado.

VI

Antonio e Hermelinda

Antonio foi o primeiro da linha a nascer brasileiro. Veio ao mundo em 23 de março de 1916, em São José do Rio Pardo, filho de Adamo e Ernesta, nove anos depois da travessia.

Quando a família trocou os cafezais por São Caetano, trocou também de ofício. São Caetano era cidade de chaminés. No bairro da Fundação ficavam as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, instaladas ali desde 1912: primeiro o sabão e os óleos, depois a seda artificial, as louças, os produtos químicos. Milhares de operários passavam por seus portões todos os dias, e Antonio foi um deles. O neto do oleiro também viveu do trabalho das mãos.

Hermelinda Ferreira nasceu ali mesmo, em São Caetano, em 5 de novembro de 1920. Trazia na história outra travessia: a mãe, Maria Estrela, era portuguesa de Cantanhede, na região de Coimbra, e o pai, Joaquim Ferreira, nascido em Pirassununga, era filho de portugueses da mesma terra. Por ela, a família que veio da Úmbria ganhou também um pouco de Portugal.

Antonio e Hermelinda casaram-se em fevereiro de 1941. O escrivão anotou no livro quem eram os dois naquele dia.

Registro Civil · São Caetano

Casamento · 15 de fevereiro de 1941

Ele

Antonio Cassoni

nascido em São José do Rio Pardo, em 23 de março de 1916

filho de Adamo e Ernesta Cassoni

morador da Rua Heloísa Pamplona, 117

profissão: operário

Ela

Hermelinda Ferreira

nascida em São Caetano, em 5 de novembro de 1920

filha de Joaquim Ferreira e Maria Estrela

moradora da Rua Rio Branco, 116

profissão: operária

Na mesma página, a mesma profissão: operário, operária.

A família morava na Rua Mariano Pamplona, em casa da própria Matarazzo, cedida aos seus funcionários. A fábrica ficava tão perto que Antonio ia e voltava a pé, e almoçava em casa.

Foi a caminho de casa, numa hora de almoço, que ele se sentiu mal. Sentou-se na guia da calçada, foi amparado pelas pessoas da rua e levado ao hospital. Morreu no dia seguinte. Tinha trabalhado até aquela manhã.

Os filhos ainda não estavam criados. A Matarazzo deixou que Hermelinda e os três continuassem na casa até a família se refazer.

E a família se refez.

VII

Renato, Lourdes e Tadeu

Antonio e Hermelinda tiveram três filhos, nascidos em São Caetano do Sul: Renato, Maria de Lourdes e Antonio Tadeu. São netos de Adamo e bisnetos do oleiro de Bevagna, herdeiros de uma coragem que veio de longe.

Renato

Em memória

Renato era o filho do meio, entre a irmã mais velha e o irmão caçula. Partiu cedo, e a sua lembrança permanece inteira entre os seus. Fez carreira na General Motors, onde chegou longe. Casou-se com Celia, a tia Celinha, e tiveram três filhos. Em casa era o tio querido, o que tratava as crianças com carinho. O nome dele a família diz com respeito e com saudade.

Maria de Lourdes

A tia Nega

Para toda a família, ela é simplesmente a tia Nega. É a mais velha dos três. Sempre alegre, termina cada frase com a sua risada característica. Há sessenta anos divide a vida com o tio Zé. Formou-se em psicologia, criou uma filha e correu o mundo, dezenas de países, voltando sempre para a mesma casa, onde a mesa era de buraco e o coração, do Palmeiras.

Antonio Tadeu

O Tadeu

Tadeu carrega o nome do pai, que perdeu ainda menino, e leva adiante, com a irmã, o sobrenome que o avô Adamo trouxe da Itália. O pai ia a pé para a fábrica. O filho ia de avião: por anos voou toda semana para Minas Gerais, nos mais de treze que dedicou à Fiat. Criou três filhos, hoje adultos. Nele a família reconhece a firmeza e a palavra que sempre foram a marca dos Cassoni.

O pai foi operário; os filhos fizeram carreira na indústria do automóvel. Os três são o elo entre a travessia e o presente. Por eles a história chegou até aqui: o barro de Stefano, a paciência de Apollonia, os treze anos de Adamo diante do mar, a casa de Ernesta, o lar de Antonio e Hermelinda.

Esta história é deles. E, por meio deles, de todos os que vieram depois.

VIII

O brasão

O brasão dos Cassoni conta em figuras o que estas páginas contam em palavras. Cada parte do escudo guarda um capítulo da família.

Em ouro e esmalte

Brasão da família Cassoni
  • Detalhe do brasão: sete estrelas de ouro em faixa vermelha

    As sete estrelas

    No alto do escudo, em campo vermelho, brilham sete estrelas de ouro. São os sete filhos de Stefano e Apollonia que cruzaram o oceano em 1907.

  • Detalhe do brasão: grifo de ouro em campo azul

    O grifo

    Metade águia, metade leão, o grifo é o símbolo de Perugia, a província de origem. Une a vigilância de uma à força do outro.

  • Detalhe do brasão: navio a vapor sobre o mar

    O vapor

    O navio é o Re Umberto, que trouxe a família de Gênova a Santos. Lembra a coragem de partir.

  • Detalhe do brasão: ramo de café com frutos vermelhos

    O ramo de café

    O café de São José do Rio Pardo foi o primeiro trabalho em solo brasileiro. Lembra a terra que acolheu a família.

  • Detalhe do brasão: arca de ouro entalhada

    A arca

    A arca é o cassone, que dá nome à família. Nela se guarda o que tem valor: a memória, a palavra e a honra.

  • Detalhe do brasão: vaso azul de duas asas em escudo de ouro

    O vaso

    No centro de tudo está o vaso de barro, ofício de Stefano. É o coração do escudo, porque foi do trabalho das mãos que tudo nasceu.

  • Detalhe do brasão: grifo dourado de asas abertas segurando o escudo

    Os dois grifos

    De cada lado, um grifo de ouro sustenta e guarda o escudo. Na tradição, o grifo é o guardião dos tesouros.

  • Detalhe do brasão: elmo de aço sob uma estrela de ouro

    O elmo e a estrela

    Sobre o escudo, o elmo de aço fala de firmeza diante da luta. Acima dele, uma estrela aponta o caminho.

  • Detalhe do brasão: faixa azul com o nome Cassoni e a inscrição Bevagna, entre ramos de oliveira

    O nome e a origem

    Entre ramos de oliveira, árvore da Úmbria e sinal de paz, a faixa traz o nome da família. Abaixo, a inscrição Bevagna diz de onde os Cassoni vieram.

Em ouro e esmalte

IX

A linha da família

O mais antigo

Antonio Cassoni

Nasceu por volta de 1750.

Úmbria, Itália

Francesco Cassoni e Francesca Lanchi

Casaram-se em 1794.

Bevagna, Itália

Sabbatino Cassoni e Eva Becchetti

O oleiro que atravessou o mar

Stefano Cassoni e Apollonia Bianchi

Chegaram ao Brasil em 21 de julho de 1907.

Os filhos

Abele · Giuseppe · Leonilde · Eva · Adamo · Fabiano · Irene · Agostino

A casa no Brasil

Adamo Cassoni e Ernesta Barucco

Casaram-se em São José do Rio Pardo.

A geração nascida no Brasil

Antonio Cassoni e Hermelinda Ferreira

Casaram-se em São Caetano, em 1941.

Os filhos de Antonio e Hermelinda

Renato · Maria de Lourdes · Antonio Tadeu

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De uma arca vem o nome. De sete estrelas, o caminho. Do barro e do trabalho, a honra de ser Cassoni.

Bevagna · Brasil

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